domingo, 24 de outubro de 2010

Ancidade

Imagina-te a desceres uma rua da cidade. Em vez de leres todas as palavras que te rodeiam, nos anúncios, nos cartazes, etc, ouve-las em voz alta na tua cabeça. Quanto silêncio então terias? Nenhum. É o que sinto quando derivo pela cidade. No campo, é a natureza que te lê, que te ouve. Lá o silêncio assusta-me porque eu e a natureza ouvimos os devaneios constantes da minha mente, e tanto eu como ela não gostamos. Por isso um homem que não esteja em paz não pode desfrutar do silêncio de si e se refugia no barulho dos outros. Para não ouvir o seu.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

À noite, no terraço.

O vento sopra. FORTE. As luzes da cidade dissolvem-se no negro do céu, que brilha a espaços, nas estrelas. A Lua cresce, lentamente. Como morrem as árvores. Pessoas cruzam os céus, estrelas cadentes de metal com rasto de fumo que não se vê. Esse fumo estranho que invade a atmosfera. Eu, de roupas sopradas pelo vento, ascendo. Vou em direcção à escuridão, não sou um corpo estranho, sinto-me uno com a escuridão. Ela recebe-me, dá-m um sofá de nada que uso para, perdido, pensar. Não sei o que encontrarei quando descer.

sábado, 25 de abril de 2009

Passeio Turístico

Saí. Vagueei... fui parar a uma praça. Centenas de pessoas, cores fortes, música alta - uma invasão aos meus sentidos.
eu - que estava a boiar num mar calmo e morno.
Festa da Flor 2009.
Maternidades bovinas reclinadas a deixar a descoberto as suas tetas, grandes, cheias de nutrientes e vida.
reclinam-se para tirar fotografias junto das suas crianças...com flores...muitas flores e cores...
o grotesco e abrupto...o doce e puro...invadem-me...
dói-me viver neste sábado de manhã. não me dói muito, não é insuportável. é um misto de dor com o contentamento de estar perdido, de andar à deriva.
Se não sei o caminho não me posso perder. mas perco-me. Só. nas montanhas de carne que estão à minha frente. quereria ser criança ou fugir a sete pés?
não sei... é esta incerteza que me agrada. o prazer de ver algo pouco belo e inquietante mexer com as minhas susceptibilidades.

é engraçado ver os outros viver. tira-nos tanto peso dos ombros. tanta responsabilidade que no silêncio da nossa observação se vai. sabe bem...
mas assusta-me a minha passividade.
quão dificil é agarrar a vida... observar a vida é masturbação, neste dia. vazio.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Uma pergunta...

Estás com alguém que está a ouvir uma pop fatela qualquer. O que fazes?

a) és fiel às tuas convicções e criticas o sentimentalismo barato e subserviência do género pop aos propósitos maquiavélicos de controlo e estupidificação da sociedade sabendo que isso te poderá marginalizar.

b) comprometes a tua integridade, és desonesto para contigo e dizes que até se ouve, de forma a conseguires um maior sentimento de pertença.

c) Nada, eu até gosto de pop.

Sintam-se à vontade para responder comentando.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Sonhos

Acordei respirando ofegantemente hoje de manhã porque sonhava que estava a ter relações sexuais tresloucadas e selvagens com a vizinha boazona do 6º direito. Eu realmente sonho muito alto! O meu prédio só tem 3 andares!

quinta-feira, 17 de junho de 2004

Ensaio sobre a Sanita *

* Nota: Os leitores mais desprevenidos decerto pensarão que o título deste texto não passa de um plágio às obras de Saramago: Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, porém, esses mesmos leitores abandonarão tais pensamentos quando lerem outros textos meus como o Ensaio sobre o Bidé (ou como um amigo meu lhe chama: Lava-pés) e o Ensaio sobre o Armário da Garagem. Após a leitura dos textos referidos os leitores dirão: “Este cromo de certeza que nunca ouviu falar de Saramago, quanto mais lê-lo.” Isto afasta todas as ideias sobre a não-originalidade deste trabalho.

A sanita está em todo o lado, não há nenhuma casa que não tenha uma casa de banho com sanita nem nenhum espaço fechado de uso público que se prive da sua presença. A sanita é, portanto, muito importante. Mas haverá uma importância maior para além da estrita funcionalidade da sanita? Eu acredito que sim e é essa importância que quero mostrar neste ensaio.
A vida actual corre a uma velocidade enlouquecedora, os dias passam rápido e o tempo de estar simplesmente sem fazer nada é cada vez mais reduzido. Nos empregos muitos patrões exigem a eliminação dos tempos de descanso. O seu sonho é ter um grupo de empregados que trabalhe bem, rápido e sem descansar muito. Porém, existe uma forma de quebrar o ritmo e de relaxar por um pouco: a ida à casa de banho, ou mais propriamente, o uso da sanita. O empregado de escritório pode muito bem, relaxadamente, imaginar a forma como vai passar as suas férias enquanto está sentado na sanita.
Porque será que a sanita parece sempre diferente dos outros elementos constituintes da casa de banho? O que fazemos na sanita é consideravelmente diferente de toda a utilidade que damos à casa de banho. Tudo serve para limpar, seja a cara, os pés, as zonas mais íntimas, ou até o corpo todo, excepto a sanita. Na sanita sujamos mas a diferença entre a sanita e o resto do W.C. não reside aí, a diferença está no tempo que podemos passar na sanita enquanto estamos comodamente sentados. Se tivermos que trabalhar e não nos apetecer sempre podemos preparar-nos psicologicamente durante o uso da sanita e depois enfrentar as nossas tarefas. A sanita assume-se assim como um lugar mágico que possibilita uma quebra curta mas regeneradora com a realidade.
Num mundo onde as relações amorosas têm muita importância e onde cada vez mais se teoriza sobre as mesmas, a sanita desempenha um papel fulcral. A sanita pode representar o, já mencionado, corte com uma realidade pouco motivadora, como estar com pouca paciência para aturar a/o namorada/o, a/o mulher/marido ou a/o vizinha/o do 5º esquerdo, ou até tudo ao mesmo tempo. Contudo, a grande função da sanita que quero agora salientar é a de intimidadómetro, ou seja, a sua capacidade para medir o grau de intimidade que existente entre duas ou mais pessoas. O grau de intimidade de um casal é muito elevado quando ela/e entra na casa de banho durante o uso da sanita por parte do companheiro/a sem bater na porta ou pedir. Nesta situação a partilha é total e as pessoas já sabem que não poderão fazer nada em casa sem a possibilidade de serem interrompidos. Isto leva a que a/o namorada/o, a/o mulher/marido ou a/o vizinha/o do 5º esquerdo possam ser apanhadas/os em hábitos que até então eram do desconhecimento dos companheiros/as e que faziam com que esses mesmos companheiros/as mantivessem uma ideia angelicamente perfeita da outra pessoa. O grau em questão desce proporcionalmente quando as pessoas pedem licença para entrar ou simplesmente esperam que a outra pessoa saia, aqui as imagens mais puritanas das amadas/os mantêm-se intactas e essas pessoas ainda dispõem de uma liberdade pessoal e íntima considerável. Estas duas grandes funções da sanita são de enorme utilidade para o ser humano vivendo nos tempos correntes e são consequência das particularidades destes mesmos tempos, estranhas particularidades essas.
Toda a gente tende a esquecer-se da importância dos objectos que usamos diariamente, lembrei-me disso quando estava na casa de banho. Decidi, então, escrever este ensaio para que as pessoas não deixem que a importância da sanita vá pelo cano abaixo e para que não esqueçam o mundo patético em que vivemos, em que o controlo sobre o que fazemos pode ser tão pouco que a sanita poderá representar uma salvação da rotina diária que nos é imposta.

O dinheiro é tão bonito!

Existem duas personalidades relacionadas com Portugal que têm, neste momento, uma exposição mediática enorme. Um chama-se Luís e o outro José. O primeiro é o embaixador espanhol em Portugal; gosto muito dele porque reconheço o enorme esforço que faz para falar português; o seu apelido é Figo. O segundo senhor escreve ensaios sobre a capacidade visual; que ele próprio tem enfraquecida, considerando a forma como coloca a pontuação; e o seu apelido é Saramago.
Bem, deixando a brincadeira de parte, este último senhor disse, aquando do início da actual guerra no Iraque, que se as religiões não existissem, as guerras também não teriam lugar no mundo. Lembro-me de nessa altura acrescentar para comigo próprio, com vontade de substituir, o elemento dinheiro.
Já quando eu era teenager dizia, com extrema convicção, que as duas piores invenções do Homem foram os espelhos e o dinheiro, os espelhos porque trouxeram a vaidade, a superficialidade, etc., e o dinheiro porque trouxe poder e o desejo de o obter. Ambos os elementos contribuíram para um fenómeno muito característico dos humanos: o de terem ânsia de se superiorizarem relativamente aos outros. Existe uma produção humana que retracta bem a ânsia de obter poder, estou a falar d”O Senhor do Anéis” de Tolkien e da sua adaptação ao cinema. Apesar de muita gente gostar da escrita fantástica de Tolkien ou dos efeitos especiais e grandiosidade do filme de Peter Jackson, o facto é que no Senhor dos Anéis está bem patente a força de atracção que existe entre os humanos e o poder. Na sociedade actual não é um anel que traz poder mas sim o dinheiro. No entanto, o que li há algum tempo atrás faz-me crer que não é todo o tipo de dinheiro. A noticia baseava-se num estudo que afirmava que as pessoas se sentiam mais realizadas e felizes quando a sua fortuna era resultado do seu trabalho, ao invés, se as pessoas ganhassem o seu dinheiro numa lotaria esse sentimento não estaria presente. O que eu pensei na altura foi que ao humano não basta ter dinheiro para se sentir realizado, ele tem de ver o seu dinheiro crescer junto com o seu poder e saborear esse crescimento. Ganhar a lotaria implica não lutar por nada e não deixar outros para trás na ascensão, logo, não tem piada.
Para chegar ao porquê da vontade do ser humano em ter poder e ser superior aos outros tinha de escrever muito, por isso é melhor constatar as engraçadas figuras que a Humanidade tem feito ao longo do tempo por causa de dinheiro e poder. Milhares de pessoas morreram em toda a História para que um líder louco saciasse a sua sede de poder, e em que é que isso modificou a vida desses loucos? Certamente lhes deu um fim muito mais grandioso e dramático que aos outros. Talvez a diferença esteja aí, na maneira como se abandona o mundo. Muitos foram esfaqueados, enforcados, baleados, tudo resultado do ciclo de poder que motivou loucos mais jovens a conquistar o que pertencia aos seus adversários.
Vamos fazer o exercício cliché, vamos imaginar o mundo sem notas nem moedas................................. Não dá, o preço do barril teria de ser quantificado em alguma coisa senão não valia a pena inventar desculpas para ocupar países árabes. Substituamos então o dinheiro por outra coisa. Cascas de banana. €1 equivalente a uma casca de banana. Dizer que alguém tem a ânsia de obter mais e mais cascas de banana já não parece tão ganancioso. O barril de petróleo custaria agora 40 cascas de banana. 41. 43. 46. Novo recorde do preço do petróleo, 48 cascas de banana. É melhor deixar o petróleo em paz. Quando comecei a fazer este exercício não me lembrei de uma coisa. Os países produtores de banana seriam os mais ricos do mundo. Ainda bem, isso quer dizer que os States já não mandariam no mundo. Bem, a bebida mundialmente consumida seria a caipirinha, haveria restaurantes a servir picanha em todo o lado, as línguas oficiais na comunicação internacional seriam o espanhol e o português, toda a gente admiraria a cultura do Brasil, Equador, Colômbia e todos os países da América do Centro e Sul. Certamente seria uma reviravolta interessante. Mas neste contexto há uma pessoa que seria muito perigosa, Alberto João Jardim. Este homem seria muito poderoso e decerto quereria conquistar o mundo. A sede da Europa seria a Madeira. Tudo por causa das bananas. O mundo transformado numa república das bananas. É melhor parar por aqui.
Parece que a maior parte das pessoas não gosta de ser o que é, quer ser algo mais, alguém superior, mais rico e poderoso. Será por causa de poder ter sempre um objectivo por cumprir que dará sentido à vida? Talvez seja isso. Tenta-se ser mais e mais rico e quando se é o mais rico de todos procura-se outro objectivo na vida, como por exemplo começar a viver.